O Pandemic Fund, estrutura com sede em Washington, revelou esta quinta-feira um pacote de financiamento de emergência de 50 milhões de dólares para reforçar a resposta ao surto de Ébola que afeta países da África Oriental e Central. A decisão surge numa altura em que a Organização Mundial de Saúde já manifestou preocupação com a propagação do vírus em múltiplas fronteiras.

A verba será distribuída ao longo de 18 meses e visa apoiar directamente sistemas de saúde no terreno, além de fortalecer a capacidade de vigilância epidemiológica em países como a República Democrática do Congo, Uganda e Ruanda, que reportedaram casos activos nas últimas semanas.

Montante e механиismos de distribuição

Washington Anuncia $50 Milhões de Emergência para Combate ao Ébola na África — Empresas
Empresas · Washington Anuncia $50 Milhões de Emergência para Combate ao Ébola na África

Os 50 milhões de dólares representam a maior injecção única de fundos de emergência desde a criação do Pandemic Fund em 2022. Do total, 30 milhões serão canalizados através da OMS para aquisição de vacinas e tratamentos experimentais, enquanto os restantes 20 milhões ficarão a cargo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para operações logísticas e de sensibilização comunitária.

O anúncio foi feito pelo director executivo do Fundo, DidierFormentin, durante uma conferência de imprensa em Genebra. "Este financiamento permite actuar antes que o surto se alastre para além das fronteiras actuais", afirmou Formentin, sublinhando que atrasos na resposta podem custar até 10 vezes mais em perdas humanas e económicas.

Critérios de elegibilidade dos países

Podem candidatar-se ao financiamento os países que comprovem actividade epidémica activa confirmada laboratorialmente e que demonstrem lacunas críticas na capacidade de resposta. A República Democrática do Congo, que enfrenta o seu 15.º surto documentado de Ébola desde 1976, é o principal candidato imediato. Uganda e Sudão do Sul, ambos com fronteiras terrestres com zonas de risco, também figuram na lista prioritária.

Contexto do actual surto

O vírus Ébola, que causa febre hemorrágica com taxa de mortalidade que pode atingir os 90% em algumas estirpes, ressurgiu na África Oriental após um período de relativa contenção. Os primeiros casos foram detectados em Novembro na província de Kivu do Norte, na RDC, expandindo-se depois para áreas urbanas com alta densidade populacional.

A situação é particularmente alarmante porque as zonas afectadas incluem centros urbanos como Goma, cidade com mais de dois milhões de habitantes e localização estratégica junto à fronteira com Rwanda. Um único caso não contido nesta área pode, segundo modelos epidemiológicos, gerar milhares de infecções em poucas semanas.

O último grande surto na região, entre 2018 e 2020, custou a vida a mais de 2.200 pessoas e provocou perdas económicas estimadas em 4 mil milhões de dólares nos três países mais afectados. A comunidade internacional aprende lentamente que a resposta tardia é sistematicamente mais onerosa do que a prevenção.

Resposta internacional e coordenação

Além do Pandemic Fund, várias organizações já anunciaram apoio parallelo. O Centres for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos enviou uma equipa de 12 epidemiologistas para a RDC, enquanto a MSF (Médicos Sem Fronteiras) reforçou as suas equipas no terreno com pessoal especializado em contenção de surtos.

A União Europeia mobilizou por sua vez 15 milhões de euros através do mecanismo europeu de protecção civil, montante que será coordenado com o financiamento do Pandemic Fund para evitar duplicações. Esta articulação entre diferentes doadores é crucial, segundo especialistas, para maximizar o impacto de cada euro investido.

Desafios no terreno

Os obstáculos para travar a propagação permanecem consideráveis. Vastas regiões da África Central carecem de infraestrutura de comunicações e estradas transitáveis, o que dificulta o transporte de vacinas que requerem refrigeração constante a temperaturas inferiores a 60 graus negativos.

A desconfiança de comunidades locais face a equipas médicas externas representa outro desafio significativo. Durante surtos anteriores, ataques a centros de tratamento e trabalhadores de saúde dificultaram gravemente os esforços de contenção. O financiamento do Pandemic Fund inclui, pela primeira vez, uma componente específica de 5 milhões de dólares para engajamento comunitário e comunicação de risco.

Implicações para a saúde global

A rapidez desta resposta contrasta com a lentidão observada durante os primeiros estágios da pandemia de covid-19. O Pandemic Fund, criado especificamente para evitar a repetição daquela situação, demonstrou ter mecanismos de activação mais ágeis do que os disponíveis anteriormente para emergências sanitárias.

Contudo, o financiamento agora anunciado cobre apenas as necessidades imediatas. Estimativas preliminars do Banco Mundial indicam que seriam necessários pelo menos 200 milhões de dólares para uma resposta abrangente que inclua preparação de sistemas de saúde em países vizinhos de alto risco, como Tanzania e Burundi.

A criação do Pandemic Fund foi inspirada nas falhas de coordenação global durante a crise do Ébola de 2014-2016, quando a resposta inicial foi considerada tardia e fragmentada. Este novo surto serve de teste à eficácia da arquitectura de financiamento国际 que países do G20 se comprometeram a construir.

O que esperar nos próximos meses

O primeiro desembolso de 15 milhões de dólares está previsto para dentro de 30 dias, mediante aprovação dos planos de resposta submetidos pelos países elegíveis. Os restantes fundos serão libertados em tranches semestrais, condicionadas a indicadores de progresso definidos conjuntamente pelo Pandemic Fund, OMS e os governos受益ários.

Os próximos sete dias serão determinantes para perceber se o surto consegue ser contido ou se we'll enter uma nova fase de propagação acelerada. A próxima reunião do Comité de Emergência da OMS está marcada para 15 de Janeiro, quando será avaliada a eventual declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional — ferramenta que, se activada, poderá desbloquear financiamento adicional significativo.

Até lá, todos os olhos estarãovirados para Goma e para a capacidade das equipas no terreno conseguirem rastrear e isolar casos antes que a transmissão atinja níveis exponenciais. O financiamento existe. A questão é se chega a tempo.

Opinião Editorial

A próxima reunião do Comité de Emergência da OMS está marcada para 15 de Janeiro, quando será avaliada a eventual declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional — ferramenta que, se activada, poderá desbloquear financiamento adicional significativo. Esta articulação entre diferentes doadores é crucial, segundo especialistas, para maximizar o impacto de cada euro investido.

— minhodiario.com Equipa Editorial
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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.