Um consórcio de investigadores alemães desbloqueou o conteúdo de um tablete de barro com 3.000 anos, utilizando um modelo de inteligência artificial (IA) que analisou as texturas da argila antes mesmo de a escrita ser totalmente visível a olho nu. A descoberta foi anunciada esta semana pela Universidade de Tübingen, que colaborou com especialistas em cunha suméria para ler um texto administrativo que muitos acreditavam ter sido perdido para sempre.

Esta não é apenas uma curiosidade académica; marca uma virada na forma como a arqueologia lida com artefactos frágeis e quase ilegíveis. O método permite ler textos em tabletes que ainda estão enrolados ou com a superfície desgastada, sem precisar de os abrir fisicamente, o que frequentemente resulta na sua fragmentação.

Um desafio que persistia há três séculos

Alemanha descifra segredo de 3.000 anos com IA — Mercados
Mercados · Alemanha descifra segredo de 3.000 anos com IA

O tablete em questão foi encontrado na região da Mesopotâmia, no atual Iraque, durante uma escavação inicial realizada em 1875. Desde então, permaneceu em coleções privadas e em museus europeus, mas a sua superfície estava tão lisa e o texto tão fraco que os leitores de cunha mais experientes tinham dificuldade em distinguir as marcas das imperfeições naturais da argila.

A escrita cunha, usada por civilizações como os Sumérios e os Babilónicos, consiste em marcas feitas com um calamo de junco pressionado contra o barro úmido. Com o tempo, a exposição ao sol e à umidade pode alisar essas marcas, tornando-as quase invisíveis. O tablete específico analisado continha um recibo de pagamento de cerveja, um detalhe aparentemente simples que revela a estrutura económica da época.

Antes desta intervenção tecnológica, os investigadores dependiam de luzes oblíquas e de lentes de aumento para tentar decifrar as superfícies. Esses métodos, embora úteis, exigiam um esforço humano intenso e eram muitas vezes subjetivos. Dois especialistas poderiam interpretar a mesma marca de formas diferentes, levando a debates que duravam décadas sem uma conclusão definitiva.

A tecnologia que lê o invisível

A equipa liderada por cientistas da Universidade de Tübingen utilizou uma técnica chamada de "mapeamento de textura de superfície". Em vez de olhar apenas para a imagem 2D do tablete, a IA analisou as microvariações na altura e na profundidade das marcas de cunha. O algoritmo foi treinado com milhares de outros tabletes já decifrados, permitindo-lhe "prever" onde as marcas de cunha deveriam estar, mesmo que estivessem parcialmente apagadas.

O processo de digitalização e análise

O processo começou com a digitalização de alta resolução do artefacto, capturando milhões de pontos de dados sobre a sua topografia. A IA depois comparou esses dados com uma base de dados de textos cunha conhecidos. O resultado foi um mapa de probabilidade que destacava as áreas onde a escrita era mais provável de existir.

Os investigadores confirmaram que o texto era um documento administrativo que detalhava a distribuição de ração, especificamente cerveja e grãos, para trabalhadores num templo. Este tipo de documento era comum na cidade de Uruk, uma das primeiras grandes cidades do mundo, o que situa o artefacto num contexto histórico rico e bem documentado.

A precisão do método foi validada ao comparar as previsões da IA com a leitura tradicional feita por três especialistas independentes. A concordância foi superior a 90%, o que dá uma confiança considerável na leitura final. Este nível de precisão era raro anteriormente, especialmente para tabletes com a superfície tão desgastada.

Implicações para a história antiga

A capacidade de ler estes textos abre uma nova janela para a vida quotidiana nas primeiras civilizações. Até agora, muito do que sabíamos vinha de inscrições reais, como as do Rei Hamurabi, ou de textos literários como o "Épico de Gilgame". Os documentos administrativos, embora mais comuns, eram frequentemente considerados secos e menos importantes para a narrativa histórica geral.

Com esta nova ferramenta, historiadores podem agora analisar a economia, a gestão de recursos e até a demografia de cidades antigas com muito mais detalhe. Saber quanto cereal ou cerveja recebia um trabalhador pode revelar muito sobre a inflação, a sazonalidade do trabalho e a hierarquia social. É uma mudança de foco do "grande homem" da história para o cidadão comum.

Esta descoberta também tem implicações para a forma como os museus gerem as suas coleções. Muitos museus na Alemanha e noutros países europeus guardam centenas de tabletes que foram considerados "dificilmente legíveis" ou até mesmo "em branco". A aplicação desta tecnologia pode levar a uma nova vaga de descobertas sem a necessidade de novas escavações caras no Iraque ou na Turquia.

Como isto afeta a visão sobre a antiguidade

A integração da IA na arqueologia não substitui o arqueólogo, mas amplifica a sua capacidade de análise. Os especialistas enfatizam que a tecnologia é uma ferramenta de apoio, não um substituto do juízo crítico humano. A IA sugere uma leitura, mas é o especialista que contextualiza e valida essa leitura com o conhecimento histórico.

Este desenvolvimento demonstra como a interdisciplinaridade está a transformar as ciências humanas. A colaboração entre engenheiros de software, linguistas e arqueólogos está a produzir resultados que nenhuma das disciplinas conseguiria alcançar sozinha. É um exemplo concreto de como a tecnologia pode dar nova vida a artefactos que pareciam ter dito tudo o que tinham para dizer.

Além disso, a descoberta realça a importância da preservação digital. Os dados dos tabletes podem ser armazenados, compartilhados e reanalisados com novos algoritmos, garantindo que a informação não se perca com o tempo. Isto é particularmente relevante para regiões em conflito, como o Médio Oriente, onde os sítios arqueológicos estão sempre sob ameaça.

O que esperar no futuro próximo

Os investigadores planeiam aplicar este método a outros artefactos, incluindo tabletes de barro enrolados que contêm textos de escolas de cunha de Uruk. Estes tabletes, conhecidos como "tabletes de escola", foram descobertos há décadas, mas permanecem fechados há mais de 3.000 anos. A IA poderá permitir ler o seu conteúdo sem quebrar a casca exterior, preservando o artefacto por mais séculos.

A equipa da Universidade de Tübingen já está a trabalhar com o Museu do Louvre em Paris e com o Museu Britânico em Londres para digitalizar as suas coleções. O objetivo é criar uma base de dados aberta de textos cunha digitalizados, o que facilitaria o acesso de investigadores de todo o mundo. Esta colaboração internacional promete acelerar o ritmo das descobertas nas próximas décadas.

A comunidade académica aguarda com expectativa os próximos anúncios. A próxima fase do projeto envolve a análise de tabletes de períodos mais tardios, como o Império Neobabilónico, para ver se a precisão da IA se mantém ao longo do tempo. Os resultados desses estudos serão publicados em revistas especializadas no início do próximo ano, oferecendo uma visão mais ampla do impacto desta tecnologia na história antiga.

Opinião Editorial

Os documentos administrativos, embora mais comuns, eram frequentemente considerados secos e menos importantes para a narrativa histórica geral. Os resultados desses estudos serão publicados em revistas especializadas no início do próximo ano, oferecendo uma visão mais ampla do impacto desta tecnologia na história antiga.

— minhodiario.com Equipa Editorial
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Autor
Jornalista com 18 anos dedicados à cobertura do tecido empresarial português, com foco em PME, empreendedorismo e internacionalização. Formado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa. Rui acompanha de perto o ecossistema de startups nacional, o programa Portugal 2030 e os fundos europeus disponíveis para as empresas. É autor do podcast "Negócios de Portugal", onde entrevista empresários e decisores económicos.