O governo chinês intensificou os investimentos em infraestrutura para compensar a redução no consumo doméstico, segundo dados divulgados pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC). A medida ocorre em meio a uma desaceleração do consumo, que caiu 2,5% no primeiro trimestre de 2024, segundo o Departamento de Estatística Nacional. A política visa estabilizar o crescimento econômico, que cresceu 5,3% no mesmo período, abaixo das expectativas de 6%.

Consumo em Queda e Políticas de Infraestrutura

A redução do consumo foi impulsionada por fatores como a desaceleração do setor imobiliário e a desconfiança dos consumidores. Segundo o economista Wang Li, da Universidade de Pequim, "o consumo doméstico é um dos pilares da economia chinesa, e sua queda representa um desafio significativo". Para compensar, o governo aprovou investimentos de 2,3 trilhões de yuans em projetos de infraestrutura, incluindo estradas, ferrovias e redes de energia, com foco em regiões menos desenvolvidas, como a província de Sichuan.

China Reduz Consumo e Aumenta Infraestrutura para Estabilizar Economia — Politica
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O ministério da Infraestrutura afirma que os novos projetos devem gerar mais de 2 milhões de empregos até 2025. A iniciativa também visa estimular a demanda por materiais como aço e cimento, setores que enfrentavam uma queda na procura. O diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, Chen Gang, destacou que "a infraestrutura é uma ferramenta eficaz para impulsionar a economia em momentos de instabilidade".

Impacto nas Exportações e Relações Comerciais

O aumento de investimentos em infraestrutura pode ter efeitos diretos nas exportações chinesas. Países como Portugal, que importam bens industriais e máquinas, podem ver uma mudança nos fluxos comerciais. Segundo o Instituto Nacional de Estatística de Portugal, as importações de bens de capital da China subiram 12% no primeiro trimestre de 2024. A economista Maria Fernandes, especialista em comércio internacional, afirma que "a China está reorientando sua produção para projetos internos, mas ainda mantém uma presença forte no mercado europeu".

Além disso, o crescimento da infraestrutura pode reduzir a dependência de mercados externos. O ministro da Economia chinês, Liu He, destacou que "a economia precisa se tornar mais autossuficiente, especialmente em um cenário internacional incerto". Essa estratégia pode afetar países que dependem das exportações chinesas, como Portugal, que importa grande parte de seus bens industriais do país asiático.

Desafios e Riscos da Políticas de Infraestrutura

Apesar dos benefícios, a expansão da infraestrutura traz riscos. O aumento de dívida pública e a sustentabilidade dos projetos são pontos críticos. Segundo um relatório do Banco Mundial, a dívida pública chinesa atingiu 60% do PIB em 2023, elevando preocupações sobre a capacidade de pagamento. A economista Zhang Wei, do Instituto de Estudos Econômicos da China, alerta que "a dívida pode se tornar um fator de risco se os projetos não gerarem retorno econômico adequado".

Além disso, a concentração de investimentos em infraestrutura pode desestimular a inovação e o crescimento do setor privado. O economista Liang Fang, da Universidade de Shangai, afirma que "a economia precisa de equilíbrio entre investimento público e iniciativa privada". O governo chinês está trabalhando para atrair investidores privados, mas o processo é lento.

Como isso Afeta Portugal?

O impacto direto de políticas chinesas em infraestrutura pode ser sentido em Portugal, especialmente nos setores de construção e tecnologia. A empresa portuguesa Construções Lusitânicas, que fornece equipamentos para projetos de infraestrutura, já notou um aumento nas encomendas de máquinas e equipamentos. O diretor da empresa, João Silva, afirma que "a China está buscando fornecedores confiáveis, e Portugal pode se beneficiar disso".

Além disso, a mudança na estratégia de investimento chinês pode alterar a dinâmica comercial entre os dois países. Se a China priorizar projetos internos, a demanda por bens importados pode diminuir. No entanto, a cooperação em infraestrutura pode se intensificar, especialmente em projetos de energia e transporte. O embaixador português na China, Carlos Ferreira, destaca que "a relação entre Portugal e China tem potencial para crescer, especialmente em áreas de inovação e sustentabilidade".

Cooperação em Energia e Sustentabilidade

Além da infraestrutura física, a China também está investindo em projetos de energia renovável. O país é um dos maiores investidores globais em energia solar e eólica, com planos de aumentar a capacidade de energia limpa em 40% até 2030. Essa tendência pode criar oportunidades para empresas portuguesas especializadas em tecnologia verde.

O projeto de parque solar de Alentejo, por exemplo, tem recebido interesse de investidores chineses. A empresa portuguesa SolarAlentejo, que gerencia o projeto, afirma que "a China está buscando parceiros em tecnologia limpa, e Portugal pode se posicionar como uma referência nesse setor".

O próximo passo para o governo chinês será monitorar a eficácia dos investimentos em infraestrutura e ajustar as políticas conforme necessário. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma deve publicar relatórios trimestrais sobre os resultados dos projetos, com dados sobre empregos gerados e impactos econômicos. Portugal e outros países que dependem das exportações chinesas devem acompanhar de perto essas mudanças, pois elas podem redefinir as relações comerciais e de investimento.

S
Autor
Jornalista económica especializada em sustentabilidade, ESG e transição energética. Mestre em Economia do Ambiente pela Universidade de Coimbra. Sofia cobre a implementação dos critérios ESG nas empresas cotadas, o mercado de carbono europeu, as metas climáticas nacionais e o impacto da regulação ambiental da UE no tecido empresarial português. Premiada pelo Club de Jornalistas com o prémio de Jornalismo Ambiental em 2022.