O continente africano tem sido palco de inovações tecnológicas e sociais que, apesar do potencial, muitas vezes são ignoradas pelo mundo. Um estudo recente do Instituto de Inovação de Lagos, na Nigéria, revelou que mais de 60% das startups africanas têm soluções inovadoras para problemas locais, mas enfrentam dificuldades para atrair investimento internacional. A falta de visibilidade tem consequências reais, afetando tanto o desenvolvimento local quanto o potencial de cooperação com países como Portugal.

Estudo Revela Falta de Reconhecimento

O Instituto de Inovação de Lagos, uma organização local dedicada a apoiar empreendedores, realizou uma pesquisa com 350 startups africanas em 2023. O estudo mostrou que 62% delas desenvolvem tecnologias que podem ser replicadas em outros países, mas apenas 15% têm acesso a financiamento estrangeiro. "A falta de visibilidade é um dos maiores obstáculos", afirmou Maria Okafor, diretora do instituto. "As inovações africanas não são vistas como competitivas ou relevantes para mercados globais."

África Ignorada: Inovações Continentais Não Têm Destaque — Empresas
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Além disso, a pesquisa destacou que a maioria das inovações está focada em soluções práticas para problemas locais, como acesso à água, energia limpa e educação. "O que vemos aqui é uma inovação com impacto real, mas que não chega ao radar do mundo", explicou o pesquisador Adewale Adeyemi. Ele ressaltou que, apesar de terem potencial, muitas empresas africanas não têm estrutura para se internacionalizar.

Consequências para o Mercado Global

A falta de reconhecimento das inovações africanas pode ter impactos diretos no mercado global. Segundo um relatório da Organização Mundial do Comércio (OMC), o setor de tecnologia africano cresceu 12% em 2023, mas apenas 3% desse crescimento foi financiado por investidores estrangeiros. "O que estamos vendo é um desequilíbrio", comentou o economista português João Ferreira. "Países como Portugal poderiam se beneficiar de parcerias com startups africanas, mas ainda não há um canal claro para isso."

Além disso, o estudo apontou que empresas portuguesas que buscam inovação estão ignorando oportunidades locais. "Muitas delas buscam soluções no Vale do Silício, mas não olham para o continente africano", afirmou o analista de tecnologia Miguel Santos. Ele destacou que, por exemplo, soluções de energia solar desenvolvidas em Angola ou Nigéria poderiam ser adaptadas para uso em regiões de Portugal com alta insolação, como Algarve.

Exemplos de Inovações Africanas

  • Em Angola, a empresa SolarAfro desenvolveu um sistema de energia solar portátil para comunidades rurais.
  • Na Tanzânia, a startup M-Pesa, que se tornou uma das maiores plataformas de pagamento móvel do mundo, nasceu com base em necessidades locais.
  • No Quênia, a empresa UjuziKilimo oferece soluções de agricultura de precisão, usando tecnologia para aumentar a produtividade dos agricultores.

Essas inovações, embora localizadas, têm potencial para ser replicadas em outras regiões. O problema, segundo especialistas, é a falta de visibilidade. "Muitas vezes, as soluções africanas são vistas como de baixo custo, mas não como inovadoras", disse o diretor do Instituto de Inovação de Lagos, Maria Okafor.

Opportunities for Portugal and Africa

Para o economista João Ferreira, a colaboração entre Portugal e o continente africano é essencial. "Portugal tem uma posição estratégica para facilitar conexões entre empresas africanas e mercados europeus", afirmou. Ele destacou que iniciativas como o Programa de Cooperação Lusófona poderiam ser ampliadas para incluir parcerias tecnológicas.

Além disso, o governo português já está iniciando discussões sobre como apoiar empreendedores africanos. A Secretaria de Estado da Inovação, por exemplo, está analisando propostas para criar uma plataforma de networking entre startups portuguesas e africanas. "A ideia é que as inovações africanas não sejam ignoradas, mas sim integradas ao ecossistema global", explicou o secretário António Silva.

O Que Esperar em 2024

O ano que vem pode ser crucial para mudar a percepção das inovações africanas. A Secretaria de Estado da Inovação planeja lançar uma iniciativa específica para promover parcerias com startups africanas, com apoio de empresas portuguesas. Além disso, o Instituto de Inovação de Lagos espera lançar uma nova edição do estudo, com dados atualizados e uma maior cobertura geográfica.

Para os empreendedores africanos, o desafio continua. "Precisamos de mais visibilidade, de mais apoio e de mais oportunidades", disse Maria Okafor. A pergunta que se coloca agora é: como o mundo vai reagir a essas inovações que, apesar de estar no continente africano, têm potencial global. O que o próximo ano trará será determinante para a percepção e o futuro dessas inovações.

A
Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.