O líder da junta militar de Burkina Faso, Mohamed Traoré, afirmou publicamente que a democracia "não é para nós", reforçando a posição do grupo que assumiu o poder após um golpe de Estado em 2022. A declaração foi feita durante um discurso em Ouagadougou, a capital do país, onde o general destacou a incompatibilidade entre o sistema democrático e a realidade do país. A afirmação surge em um momento de instabilidade política e social, com o país enfrentando uma onda crescente de violência ligada ao terrorismo.

Rejeição pública à democracia

Na sexta-feira, Traoré, comandante do Grupo de Intervenção e Defesa da República (GIDR), afirmou durante um comício em Ouagadougou: "A democracia não é para nós. Temos que pensar em soluções próprias". A declaração foi feita diante de milhares de apoiadores e foi interpretada como um sinal de que a junta não pretende ceder ao pressionamento internacional para retomar o caminho democrático.

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Esta não é a primeira vez que o líder militar demonstra descontentamento com o modelo de governo tradicional. Em 2022, após o golpe que derrubou o presidente Roch Marc Christian Kaboré, Traoré já havia afirmado que o país precisava de "uma nova forma de governar". A rejeição à democracia é vista por analistas como uma tentativa de consolidar o poder e evitar o retorno de figuras políticas anteriores.

Contexto histórico e instabilidade

Burkina Faso, um país de 21 milhões de habitantes, enfrenta uma crise de segurança que se agravou nos últimos anos. Segundo dados da ONU, mais de 3 milhões de pessoas estão deslocadas dentro do país devido ao conflito com grupos jihadistas. A instabilidade tem levado a uma redução do PIB e ao aumento da pobreza, especialmente nas regiões do norte e noroeste.

Além disso, a relação com os países vizinhos tem sido tensa. O Mali e o Níger, que também passaram por golpes militares, têm mantido uma aliança regional para combater o terrorismo, mas Burkina Faso tem adotado uma postura mais independente. A declaração de Traoré reforça essa postura, afastando o país de uma cooperação mais estreita com a União Africana e a França, que há anos atua no Sahel.

Reações internacionais e consequências

A declaração de Traoré gerou reações divididas no cenário internacional. A União Europeia condenou a rejeição à democracia, enquanto a França, que mantém uma missão de combate ao terrorismo no país, expressou preocupação com o rumo político do país. "A instabilidade em Burkina Faso afeta a segurança regional e a estabilidade da região do Sahel", afirmou um porta-voz da UE.

Por outro lado, grupos de direitos humanos e organizações locais criticaram a declaração, alegando que a rejeição à democracia pode levar a uma maior repressão. "A democracia é uma forma de garantir direitos fundamentais", disse Mamadou Diallo, ativista de direitos humanos em Ouagadougou. "Se o país se afastar disso, o risco de violência aumenta."

Impacto regional e futuro incerto

As declarações de Traoré podem ter implicações para a segurança regional. Burkina Faso é um dos países mais afetados pelo terrorismo no Sahel, e a falta de uma estrutura democrática pode dificultar a cooperação com as forças internacionais. Segundo a Agência de Cooperação Internacional da França, o país perdeu 20% de sua capacidade de repressão ao terrorismo nos últimos dois anos.

Além disso, a declaração pode impactar as relações comerciais do país. Burkina Faso importa cerca de 70% dos seus produtos alimentares, e a instabilidade política pode levar a aumento de preços. O ministro da Economia, Sams'Ko Ouédraogo, alertou que a falta de estabilidade pode desencorajar investimentos estrangeiros.

O que vem por aí

As próximas semanas serão decisivas para Burkina Faso. A junta militar deve anunciar novas medidas para consolidar o poder, incluindo possíveis reformas constitucionais. A União Africana e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) já estão monitorando a situação, e uma reunião de emergência está prevista para o próximo mês.

Para os cidadãos locais, a incerteza sobre o futuro do país é cada vez maior. Muitos temem uma nova onda de violência e uma piora da situação econômica. Como disse um morador de Ouagadougou: "Esperamos que o país encontre um caminho que traga paz e prosperidade".

A
Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.