Em Portugal, a condição médica conhecida como lipedema tem gerado preocupação entre especialistas e pacientes, especialmente em regiões como Lisboa e Porto, onde o número de diagnósticos tem aumentado. O problema, que afeta principalmente mulheres, é caracterizado por um acúmulo anormal de gordura nas pernas e braços, causando desconforto e dificuldade de movimentação. O Ministério da Saúde tem vindo a monitorar o tema, mas ainda não há políticas específicas para o tratamento.
O que é o lipedema e por que é preocupante?
O lipedema é uma condição crônica que afeta a distribuição da gordura no corpo, causando inchaço e dor. Segundo a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, o problema afeta cerca de 11% da população feminina em Portugal, especialmente entre mulheres entre 30 e 50 anos. A condição é frequentemente confundida com obesidade, mas não responde bem a dietas ou exercícios tradicionais.
Dr. José Silva, endocrinologista da Clínica São João em Lisboa, explica que "o lipedema é uma doença subdiagnosticada. Muitas mulheres chegam a ser tratadas como se tivessem simplesmente sobrepeso, quando na verdade têm uma condição distinta". Ele salienta que o diagnóstico precoce é essencial para evitar complicações como dor crônica e problemas circulatórios.
Apesar de não ser uma doença letal, o lipedema pode reduzir significativamente a qualidade de vida. Em Lisboa, o Centro de Saúde de Alcântara tem registado um aumento de 20% nos casos nos últimos dois anos, segundo dados do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Como o lipedema afeta Portugal?
O impacto do lipedema em Portugal vai além do aspecto médico. A condição tem consequências sociais e económicas, especialmente para mulheres que enfrentam dificuldades no trabalho ou na atividade física. Em 2023, o Instituto de Segurança Social (ISS) registou mais de 12 mil pedidos de auxílio por incapacidade relacionados a dores crónicas, muitas das quais atribuídas a condições como o lipedema.
Em Lisboa, a associação Lipedema Portugal tem trabalhado para aumentar a conscientização sobre o tema. A sua presidente, Ana Ferreira, afirma que "o desafio maior é a falta de conhecimento sobre a doença. Muitos médicos ainda não estão familiarizados com os sintomas, o que leva a diagnósticos errados e atrasos no tratamento".
A associação tem organizado campanhas de informação em cidades como Porto e Coimbra, onde centenas de mulheres têm participado em sessões de esclarecimento. "Muitas delas sentem-se aliviadas ao descobrir que não estão sozinhas", diz Ana Ferreira.
Tratamentos e desafios
Apesar de existirem terapias como a lipoaspiração e a terapia com ondas de choque, o acesso a esses tratamentos é limitado e muitas vezes não é coberto pelo SNS. Segundo o Instituto de Medicina Preventiva (IMP), apenas 15% dos casos são tratados com métodos avançados.
Em 2024, o Ministério da Saúde anunciou a criação de um grupo de trabalho para revisar as diretrizes de diagnóstico e tratamento do lipedema. O grupo, composto por especialistas de várias universidades, deve apresentar propostas até o final do ano.
O que está a ser feito em termos de políticas?
O governo português tem vindo a debater o tema nas reuniões do Conselho de Ministros, mas até agora não há uma legislação específica para o lipedema. Em setembro, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, anunciou que o SNS vai expandir a formação de médicos de família sobre a doença, com um orçamento de 1,2 milhões de euros.
Além disso, a Comissão Europeia está a acompanhar o desenvolvimento do tema, já que o lipedema é uma condição que tem crescido em vários países da União Europeia. Em 2023, a Comissão lançou um plano de ação para melhorar o diagnóstico e o tratamento de doenças raras, incluindo o lipedema.
O objetivo é que até 2025, os profissionais de saúde em Portugal estejam mais preparados para identificar e tratar a condição, reduzindo assim o impacto na sociedade.
O que vem a seguir?
A próxima reunião do grupo de trabalho do Ministério da Saúde está marcada para o dia 15 de outubro, quando serão discutidas as primeiras propostas para a inclusão do lipedema nas diretrizes médicas. O ministro Paulo Macedo também prometeu uma campanha de informação nacional até o final do ano, com foco em regiões como o Alentejo e o Algarve, onde o problema tem crescido.
Para os pacientes, o próximo passo é a criação de centros especializados em lipedema, com apoio do Estado. Até lá, associações como a Lipedema Portugal continuam a lutar por mais visibilidade e apoio.


