O Parlamento português debateu esta semana a falta de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com o ministro da Saúde, João Almeida, a reconhecer que a situação está "a exigir ações urgentes". A sessão, que ocorreu na Assembleia da República, destacou a escassez de profissionais de saúde em várias áreas, especialmente em áreas rurais e no distrito de Lisboa.

Crise no SNS: escassez de profissionais atinge regiões inteiras

O problema é mais grave em regiões como o Alentejo e o Algarve, onde o défice de médicos e enfermeiros atinge 25% em algumas zonas. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, em 2024, o SNS registou um défice de 12.000 profissionais, com mais de 4.000 vagas abertas em unidades de saúde públicas.

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Almeida destacou que a escassez de pessoal está a comprometer o acesso a cuidados de saúde básicos. "Muitos utentes estão a enfrentar atrasos nos diagnósticos e nas consultas, especialmente em áreas com menos recursos", afirmou o ministro. O ministro pediu ao Parlamento que apoiasse a criação de incentivos para atrair profissionais para zonas com maior necessidade.

Pressão sobre o Parlamento para reforçar a saúde pública

O debate no Parlamento foi organizado pela Comissão de Saúde, que reuniu parlamentares de diferentes partidos para discutir as medidas necessárias. A deputada do PSD, Ana Gomes, destacou que "a falta de recursos humanos é um problema sistémico que não pode ser resolvido com medidas pontuais".

O PS, por sua vez, defendeu a implementação de um plano de reforço de pessoal, incluindo a contratação de profissionais de fora do país. "A União Europeia tem programas que podem ajudar, mas precisamos de mais apoio institucional", afirmou o líder socialista, António Costa.

Reclamações de profissionais e utentes

Muitos profissionais de saúde têm manifestado insatisfação com as condições de trabalho. Um enfermeiro do Hospital de Faro, que pediu para não ser identificado, afirmou que "o trabalho é sobrecarregado, e não há tempo para cuidar de todos os utentes".

Utentes também têm manifestado frustração. "Tenho que esperar meses para uma consulta de especialista", disse uma residente de Évora. O problema, segundo estudos do Instituto Nacional de Saúde, afeta especialmente idosos e pessoas com doenças crónicas.

Alternativas e soluções propostas

Entre as medidas discutidas, o Governo propôs aumentar os salários de profissionais de saúde em zonas rurais e reduzir a carga de trabalho. A proposta, no entanto, enfrenta resistência por parte de alguns partidos que a consideram "insuficiente".

O Presidente da Ordem dos Médicos, António Ribeiro, defendeu a necessidade de "melhorar a formação de profissionais e criar incentivos para que fiquem no país". A Ordem propõe também a criação de um programa de bolsas para jovens médicos que se comprometam a trabalhar em zonas de maior necessidade.

Reforço de parcerias com outros países

Uma das propostas mais discutidas foi o aumento das parcerias com países da América Latina e da África para atrair profissionais. O ministro Almeida mencionou que já estão a ser analisadas novas acordos com países como o Brasil e a Colômbia.

Contudo, o processo pode demorar meses, e o debate no Parlamento reforçou a necessidade de ações imediatas. "Não podemos esperar que as soluções internacionais resolvam tudo", afirmou o deputado do CDS, Paulo Rangel.

O próximo passo será a apresentação de propostas de lei para reforçar a contratação de profissionais de saúde, com um prazo definido para o final do mês. O Parlamento deve votar as medidas até o final de setembro, com a expectativa de que sejam aprovadas antes do verão, quando o aumento da procura por cuidados de saúde tende a ser mais intenso.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.