Pedro Moreira da Silva, ministro da Agricultura, criticou a linha de apoio de 600 milhões de euros destinada ao setor agrícola, classificando-a como "Ben-u-ron", uma referência ao medicamento que alivia sintomas, mas não cura a doença. A declaração foi feita durante uma reunião com representantes da Cerealis, uma das maiores cooperativas agrícolas de Portugal, que enfrenta dificuldades devido à crise no mercado agrícola. O ministro destacou que o apoio financeiro é necessário, mas não resolve as causas estruturais do problema.
Crise agrícola em Portugal
O setor agrícola português enfrenta uma crise sem precedentes, com preços de produtos como o trigo e o milho a cair em picada. A Cerealis, com sede em Viseu, é uma das maiores cooperativas do país e tem vindo a sofrer com a instabilidade dos mercados internacionais. A linha de apoio de 600 milhões de euros foi anunciada pelo Governo para ajudar as empresas agrícolas, mas Silva destacou que o dinheiro é apenas uma "paliativa".
O ministro frisou que a crise está ligada a fatores como a dependência de mercados estrangeiros, a volatilidade dos preços e a falta de políticas de longo prazo. "Aliviar a dor é importante, mas não curar é o que nos preocupa", disse, durante a reunião com representantes da Cerealis. A cooperativa, que opera em várias regiões do país, incluindo o Centro e o Alentejo, tem vindo a pressionar o Governo para uma ação mais decisiva.
Reação da Cerealis
A Cerealis reagiu à crítica do ministro com uma posição de cautela. Em comunicado, a cooperativa destacou que a linha de apoio é "um passo importante", mas reforçou a necessidade de uma estratégia mais abrangente. "Acreditamos que a ajuda financeira é bem-vinda, mas não é suficiente para enfrentar os desafios atuais", afirmou o presidente da Cerealis, João Ferreira.
Segundo dados da cooperativa, os preços dos cereais caíram cerca de 25% nos últimos meses, afetando milhares de agricultores. A empresa, que emprega mais de 10 mil pessoas em todo o país, está a negociar com o Governo para obter medidas adicionais, como isenções fiscais e apoios técnicos.
Contexto histórico e desafios
O setor agrícola português tem vindo a sofrer com a crise económica global, que impactou negativamente os preços dos produtos agrícolas. A dependência de exportações para mercados como a Espanha e o Reino Unido tem sido um fator crítico, especialmente com o aumento da concorrência internacional. Além disso, a falta de investimento em tecnologia e inovação tem limitado a competitividade do setor.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o valor da produção agrícola em 2023 foi 12% inferior ao de 2022, um sinal preocupante para o futuro do setor. A Cerealis, como uma das maiores cooperativas, tem vindo a pressionar o Governo para que reavalie as políticas agrícolas e promova medidas mais sólidas.
Alternativas e propostas
Além do apoio financeiro, especialistas defendem a necessidade de investimento em infraestrutura e inovação. "Precisamos de um plano de longo prazo que inclua melhorias na logística e apoio à modernização das explorações agrícolas", afirmou Maria Alves, economista do Instituto Superior de Agronomia.
Outra proposta é a criação de um fundo de estabilização do mercado, que ajudaria a mitigar os impactos das flutuações de preços. A Cerealis já começou a trabalhar com o Governo para desenvolver um programa de apoio técnico, que incluiria treinamentos para agricultores e acesso a novas tecnologias.
O que está em jogo
A decisão do Governo sobre a linha de apoio de 600 milhões de euros vai ter um impacto direto em milhares de famílias que dependem do setor agrícola. A Cerealis, que opera em regiões como o Alentejo e o Centro, é uma das principais vítimas da crise e tem vindo a pressionar por uma solução mais duradoura.
O ministro Silva deixou claro que o apoio financeiro é apenas o começo. "Precisamos de uma estratégia que nos permita enfrentar os desafios do futuro", disse, destacando a necessidade de uma política agrícola mais coesa. A reunião com a Cerealis foi apenas o primeiro passo em uma discussão que vai continuar nas próximas semanas.
O próximo passo será a publicação de um plano detalhado pelo Governo, com medidas concretas para apoiar o setor agrícola. O orçamento de 2024 será crucial para definir o rumo do setor, com o Governo a ser pressionado a apresentar propostas mais ambiciosas. O que acontecer nos próximos meses vai definir o futuro da agricultura em Portugal.


