Os fabricantes portugueses estão optando por vender diretamente aos consumidores, deixando de lado os distribuidores tradicionais, diante da queda no gasto do setor. O fenômeno, que tem gerado debates no mercado, reflete um cenário de incerteza econômica e mudanças nas estratégias de comercialização. O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que o consumo privado caiu 3,2% no primeiro trimestre de 2024, sinalizando uma desaceleração no comportamento dos clientes.

Condições do mercado

O aumento da venda direta é uma resposta à desaceleração do consumo, que atingiu níveis críticos em setores como eletrônicos e eletrodomésticos. Segundo o INE, o índice de confiança do consumidor em Portugal caiu para 88 pontos em abril, o menor nível desde 2022. Essa redução de demanda está levando empresas a reavaliar suas estratégias de distribuição, buscando reduzir custos e melhorar a margem de lucro.

Fabricantes evitam distribuidores e vendem diretamente em Portugal — Empresas
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“A venda direta permite que as marcas mantenha mais controle sobre o preço e a experiência do cliente”, afirma Ana Ferreira, diretora de marketing da Vanguard, uma das empresas que adotou o modelo. “No entanto, exige investimento em logística e marketing digital, algo que não todas as empresas conseguem sustentar.”

Impacto nos distribuidores

Os distribuidores tradicionais estão sentindo o impacto dessa mudança. Segundo o Sindicato dos Distribuidores de Produtos Industrializados (Sindiprod), cerca de 40% das empresas do setor relataram perdas de receita no primeiro trimestre. “Antes, tínhamos uma relação estável com os fabricantes. Agora, muitos estão nos ignorando”, diz Pedro Almeida, presidente da associação.

Além disso, a redução no número de intermediários pode afetar a cadeia de suprimentos. “Se os distribuidores forem eliminados, a logística e a distribuição de produtos em áreas remotas podem ficar comprometidas”, alerta o economista João Mendes.

Exemplo prático

  • Companhia A: Vende 60% de seus produtos diretamente ao consumidor em 2024
  • Companhia B: Reduziu o número de distribuidores em 30% no último ano
  • Companhia C: Investiu 1,5 milhões de euros em plataformas digitais para venda direta

Consequências para o consumidor

O modelo de venda direta pode trazer benefícios, como preços mais baixos e maior transparência. No entanto, também pode limitar a escolha de produtos, especialmente em regiões com pouca infraestrutura digital. Em Lisboa, por exemplo, 70% dos consumidores dizem preferir comprar em lojas físicas, segundo uma pesquisa da Nielsen.

“A transição para a venda direta exige que as empresas invistam em serviços de atendimento e entregas rápidas”, explica Mariana Costa, especialista em e-commerce. “Senão, o cliente pode se sentir desatendido.”

Visão do governo

O Ministério da Economia tem acompanhado de perto o fenômeno. Em um comunicado recente, o ministro Pedro Vaz destacou a necessidade de equilibrar o crescimento das empresas com a proteção dos pequenos distribuidores. “O Estado tem um papel importante em garantir que o mercado se desenvolva de forma justa”, afirmou.

O governo também está estudando a possibilidade de criar incentivos fiscais para empresas que mantêm parcerias com distribuidores locais. A medida, ainda em fase de análise, poderia ajudar a reduzir o impacto negativo sobre o setor.

O que vem por aí

A tendência de venda direta deve continuar a se intensificar nos próximos meses, especialmente com o aumento do uso de plataformas digitais. A expectativa é que, até o final do ano, mais de 50% das empresas do setor de bens de consumo adotem estratégias semelhantes. No entanto, o equilíbrio entre inovação e sustentabilidade do mercado ainda é uma incógnita. O próximo passo será a avaliação do impacto no emprego e na competitividade das pequenas empresas.

A
Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.