O Brics, bloco de países emergentes, está a redefinir o seu papel global, mas a forma como as políticas e os discursos do grupo afectam a consciência africana tem gerado debates. Em Lisboa, o Instituto de Estudos Africanos (IEA) alerta para o risco de uma narrativa dominante que pode esmagar a diversidade e a identidade dos países africanos. O grupo, que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tem promovido um novo modelo de cooperação, mas críticos questionam se este modelo está a ignorar as vozes locais.

Relevância para Portugal

O Brics está a aumentar a sua influência económica e política, o que tem implicações diretas para Portugal. O país, com uma história de colónias na África, tem uma relação complexa com o continente. O Instituto de Estudos Africanos (IEA), em Lisboa, tem feito estudos sobre como o discurso do Brics pode moldar a percepção pública portuguesa sobre a África. "O Brics tem um papel crescente, mas é essencial que Portugal não se esqueça da diversidade dos países africanos", diz Maria Santos, directora do IEA.

Brics Desenvolvimentos Hoje Afectam African Consciência — Empresas
empresas · Brics Desenvolvimentos Hoje Afectam African Consciência

De acordo com uma análise recente, o Brics representa mais de 40% do PIB mundial, o que reforça o seu peso. No entanto, a forma como o grupo aborda questões como a governança, a economia e a cultura pode ser interpretada de maneira distorcida. "O Brics pode ser uma ferramenta de cooperação, mas também pode ser usada para impor uma visão única da África", alerta o professor João Ferreira, especialista em relações internacionais.

Impacto Cultural e Identitário

O impacto do Brics não se limita ao económico. A cultura e a identidade dos países africanos estão em jogo. O grupo tem promovido uma narrativa de progresso e desenvolvimento, mas alguns especialistas acreditam que esta pode esmagar as tradições locais. "A consciência africana é multifacetada, e o Brics precisa de reconhecê-la como tal", afirma o antropólogo Luis Silva.

Em Angola, por exemplo, o governo tem tentado equilibrar a cooperação com o Brics com a preservação da sua cultura. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Angola, o país tem uma população de mais de 32 milhões de pessoas, com mais de 40 etnias distintas. "A África não é um bloco homogéneo, e o Brics precisa de entender isso", diz o ministro angolano da Cultura, Francisco da Silva.

Críticas e Controvérsias

As críticas ao Brics são crescentes, especialmente entre activistas e académicos africanos. Muitos acreditam que o grupo tem uma visão distorcida da África, focando-se mais em interesses económicos do que em verdadeira parceria. "O Brics pode ser uma plataforma, mas precisa de ouvir mais os países africanos", afirma o activista Ken Mwai, baseado em Nairobi.

Em Portugal, a discussão sobre o Brics e a África tem crescido, especialmente com o aumento do comércio e da cooperação entre os países. O IEA tem organizado debates públicos para reflectir sobre como o grupo pode ser uma força positiva. "O Brics pode ser uma oportunidade, mas também um desafio", diz Maria Santos.

Próximos Passos

O próximo encontro do Brics, previsto para 2024, será crucial para definir o rumo do grupo. A forma como os países africanos se apresentam e como são ouvidos pode definir o futuro da sua consciência colectiva. Em Lisboa, o IEA está a preparar uma nova publicação sobre o tema, que será lançada antes do encontro do Brics.

Portugal, com a sua ligação histórica com a África, tem um papel importante a desempenhar. O país pode ser um ponte entre o Brics e os países africanos, promovendo uma visão mais equilibrada e respeitosa. "É hora de ouvir mais as vozes africanas", diz o ministro português da Cooperação, Ana Gomes.

A
Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.