O Líbano anunciou uma nova estratégia para fornecer ajuda humanitária a mais de um milhão de pessoas deslocadas, usando carteiras digitais como forma de distribuição de alimentos e recursos. A iniciativa, liderada pelo Ministério da Cooperação Internacional, visa melhorar a eficiência e transparência da ajuda, especialmente em um contexto de crise econômica e instabilidade política. A medida foi apresentada em novembro de 2024, com o objetivo de reduzir o desperdício e garantir que os recursos cheguem diretamente às famílias mais vulneráveis.

Carteiras Digitais Como Solução de Crise

O uso de carteiras digitais é uma resposta ao colapso da economia líbana, que levou a uma inflação anual acima de 300% e à depreciação do libra líbano. A nova abordagem, implementada em parceria com a Agência das Nações Unidas para o Refugiados (ACNUR), permite que as famílias recebam ajuda em forma de créditos virtuais, que podem ser usados em mercados locais e supermercados. A iniciativa é parte de um projeto piloto em três regiões do país, incluindo Beirute, Saida e Tripoli.

Líbano Inicia Uso de Carteiras Digitais para Ajudar 1 Milhão de Deslocados — Empresas
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“A transparência é essencial”, afirmou o ministro da Cooperação Internacional, Nizar Youssef, em uma declaração oficial. “Com o uso de tecnologia, podemos monitorar o uso dos recursos e garantir que ninguém fique de fora.” A medida também visa reduzir a corrupção, que tem sido um problema crônico no sistema de ajuda.

Impacto na População Deslocada

Segundo a ACNUR, mais de 1 milhão de pessoas no Líbano estão deslocadas devido à guerra civil síria e à instabilidade doméstica. Muitas delas vivem em condições precárias, sem acesso a serviços básicos. A nova estratégia de ajuda digital busca resolver parte desse problema, mas enfrenta desafios, como a falta de infraestrutura tecnológica e a baixa alfabetização digital entre a população mais idosa.

Em uma comunidade de Saida, Maria, uma mãe de três filhos, explicou como a ajuda digital mudou sua rotina. “Antes, tínhamos que esperar horas na fila para pegar alimentos. Agora, recebemos os créditos diretamente no celular e podemos comprar o que precisamos quando quiser.”

Críticas e Desafios

A iniciativa enfrenta críticas de grupos de defesa dos direitos humanos, que questionam a eficácia da ajuda digital em um país com alta taxa de desemprego e pouca conectividade. Além disso, a falta de acesso a dispositivos móveis e internet em áreas rurais limita o alcance da medida. “A tecnologia é útil, mas não pode substituir a ajuda direta”, disse o ativista Omar El-Khatib.

Outro desafio é a dependência de fornecedores externos para a operação das carteiras digitais. O projeto é financiado por organizações internacionais, incluindo a União Europeia e a Agência de Cooperação para o Desenvolvimento. Isso levanta questões sobre a sustentabilidade da iniciativa após o término do apoio financeiro.

Como Funciona o Sistema de Carteiras Digitais

O sistema funciona por meio de uma plataforma central que cadastra as famílias e distribui créditos mensais, baseados em critérios como tamanho familiar e necessidade. Os beneficiários recebem um código de acesso via SMS e podem usar os créditos em pontos de venda participantes. A iniciativa também inclui campanhas de sensibilização para ensinar as pessoas a usar o sistema.

“É uma forma de garantir que a ajuda chegue onde realmente é necessária”, explicou uma representante da ACNUR, que visitou o país em dezembro de 2024. “Mas é importante que haja continuidade e apoio contínuo para que o projeto dure no tempo.”

Desafios Técnicos e Sociais

Além dos desafios técnicos, há barreiras sociais. Muitos idosos e pessoas com baixa escolaridade têm dificuldade em usar os serviços digitais. Para resolver isso, o governo está trabalhando com ONGs locais para oferecer treinamentos em comunidades rurais. A iniciativa também enfrenta restrições legais, já que a legislação sobre moeda digital ainda está em fase de desenvolvimento.

Uma das maiores preocupações é a segurança dos dados. As informações dos beneficiários são armazenadas em servidores nacionais, mas a falta de regulamentação clara sobre privacidade gera insegurança entre os cidadãos.

Com o avanço da iniciativa, o Líbano espera que a ajuda digital se torne uma ferramenta essencial para o apoio às populações vulneráveis. O próximo passo é expandir o projeto para outras regiões e garantir que ele seja sustentável a longo prazo. O governo e os parceiros internacionais devem anunciar novos passos até o final do primeiro trimestre de 2025.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.