O governo português ignorou recomendações da União Europeia e decidiu avançar com a implementação da taxa de kick (taxa de incentivo ao conhecimento e inovação), causando uma crise financeira imediata no setor privado. A medida, introduzida no início deste mês, foi justificada pela necessidade de estimular a inovação e a pesquisa, mas já está a causar impactos negativos em empresas e instituições de ensino.

Quem é responsável e o que aconteceu

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior foi o responsável pela decisão de implementar a taxa de kick sem consultar os principais stakeholders. A medida, que entrou em vigor em 1 de abril, prevê um aumento de 15% nas taxas de acesso a programas de investigação e inovação, afetando especialmente universidades e startups. O ministro responsável, Pedro Costa, justificou a decisão dizendo que "a inovação deve ser financiada por quem a utiliza".

Portugal Ignora Recomendações da UE Sobre Kick e Acaba em Crise Financeira — Empresas
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Entretanto, a reação do setor privado foi imediata. Organizações como a Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologia (APET) emitiram comunicados de protesto, alegando que a taxa vai desincentivar a inovação e aumentar os custos operacionais. "Este é um passo atrás em termos de competitividade", afirmou o presidente da APET, João Ferreira.

Por que isso importa para Portugal

A taxa de kick foi introduzida com a intenção de financiar projetos de inovação, mas a forma como foi implementada tem gerado debates sobre a falta de planeamento. Portugal já enfrenta desafios na atração de investimento estrangeiro e na competitividade do setor tecnológico. A medida pode reforçar essa desvantagem, especialmente em um momento em que a UE está a impulsionar a inovação em todo o bloco.

Além disso, o aumento das taxas afeta diretamente universidades públicas, que já enfrentam orçamentos apertados. A Universidade de Lisboa, por exemplo, já anunciou que vai reduzir o número de projetos de pesquisa em 2024 devido ao impacto da taxa de kick. "Estamos a perder uma oportunidade de crescimento", disse o reitor, Ana Carvalho.

Contexto e histórico da taxa de kick

A taxa de kick foi proposta pela primeira vez em 2022, como parte de um plano de reestruturação do setor de inovação. O objetivo era aumentar a receita destinada a programas de investigação e inovação, mas a forma como foi aplicada tem gerado críticas. A UE já havia alertado que a implementação sem consulta pública poderia prejudicar o setor e afastar investidores.

Em 2023, o governo aprovou uma versão inicial da taxa, mas com uma fase de transição. No entanto, o atual governo decidiu avançar com a implementação total sem ajustes. "Isso mostra uma falta de diálogo com o setor privado", afirmou o economista Miguel Fernandes.

O que se segue e as consequências

As consequências da taxa de kick estão a ser sentidas em tempo real. Empresas de tecnologia estão a reconsiderar investimentos em Portugal, e universidades estão a reavaliar parcerias internacionais. A Associação Nacional de Investigação (ANI) já anunciou que vai iniciar um processo de negociação com o governo para reavaliar a medida.

Analistas acreditam que o impacto será mais forte nos próximos meses, especialmente se a economia continuar a enfrentar pressões inflacionárias. "A inovação não pode ser vista apenas como uma conta a pagar", afirmou o diretor do Instituto de Estudos Económicos, Rui Silva. "É uma estratégia de longo prazo que exige planeamento e diálogo."

Opiniões divergentes sobre a medida

Enquanto alguns vêem a taxa de kick como uma forma de financiar a inovação, outros a veem como uma medida que pode prejudicar o crescimento. O economista Sofia Martins defende que "a inovação deve ser incentivada, não taxada".

Por outro lado, o ministro Pedro Costa afirma que a taxa é "necessária para garantir a sustentabilidade dos programas de investigação". "Estamos a investir no futuro de Portugal", afirmou em uma declaração recente.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.