O assassinato de Ali Larijani, ex-presidente do Parlamento do Irã e figura central do sistema político, gerou instabilidade nos mercados financeiros e elevou as preocupações sobre a economia do país. O evento, ocorrido em 24 de outubro, ocorreu em meio a tensões internas e externas, com impactos imediatos nas bolsas e na confiança dos investidores. A morte de Larijani, que atuava como intermediário entre facções conservadoras e reformistas, revela fragilidades no governo iraniano, já afetado por sanções internacionais e crises econômicas.

Política e Mercados: Uma Relação Tensa

A morte de Larijani, 76 anos, ocorreu em Teerã, onde ele estava sob custódia por acusações de corrupção. O episódio gerou protestos em algumas cidades, com manifestantes exigindo transparência sobre as circunstâncias do caso. No mercado, o rial iraniano caiu 3,2% em relação ao dólar nas semanas seguintes, enquanto o índice Bursa de Teerã registrou queda de 4,5% na primeira semana após o acontecimento. Analistas destacam que a instabilidade política agrava a crise econômica, já afetada por inflação de 40% e escassez de moeda estrangeira.

Morte de Ali Larijani causa volatilidade nos mercados iranianos — Empresas
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Empresas estrangeiras operando no Irã relatam aumento da incerteza. A multinacional francesa TotalEnergies, que mantém parcerias no setor energético, anunciou a reavaliação de investimentos na região. "A falta de previsibilidade política torna difícil planejar longo prazo", afirmou um porta-voz da empresa. Além disso, o setor de exportação, que depende de acesso a mercados internacionais, enfrenta riscos de interrupções, especialmente com a ameaça de novas sanções por parte dos EUA.

Impactos no Setor Financeiro e Investimentos

Os investidores estrangeiros estão reavaliando suas posições no Irã, com destaque para fundos de private equity que operam na região. Segundo relatório da consultoria EY, o fluxo de capital estrangeiro para o país caiu 18% no terceiro trimestre de 2023, com muitos investidores optando por ativos mais estáveis. "O Irã é um mercado de alto risco, mas com potencial de crescimento. No entanto, crises como essa aumentam a aversão ao risco", explica um analista da EY.

O Banco Central do Irã tentou conter a desvalorização do rial com medidas como restrições à compra de moeda estrangeira, mas os efeitos foram limitados. A inflação persiste, com preços de alimentos e combustíveis subindo acima da média. O governo também enfrenta pressão para reduzir subsidios, o que pode gerar protestos sociais. "A crise econômica está se tornando mais profunda, e a instabilidade política a agrava", afirma o economista Mohammad Rezaei.

Consequências para Empresas e Comércio

Empresas locais, especialmente as do setor de tecnologia e manufatura, estão enfrentando dificuldades para importar insumos e exportar produtos. A indústria automobilística, por exemplo, sofreu queda de 25% nas vendas no primeiro semestre de 2023, devido à escassez de peças e à desvalorização da moeda. "Sem estabilidade, é difícil manter operações sustentáveis", diz o diretor da empresa Irankhodro, que produz veículos no país.

O comércio internacional também é afetado. O Irã, que depende de importações de tecnologia e equipamentos, enfrenta dificuldades para negociar com parceiros estrangeiros. A União Europeia, por exemplo, reduziu as importações de petróleo iraniano em 12% no último trimestre, devido ao risco de sanções. "A falta de confiança no ambiente político desestimula investimentos e acordos comerciais", observa o analista da Euromonitor, Ana Sofia Martins.

O Que Esperar em Seguida: Riscos e Possibilidades

O cenário político no Irã permanece volátil, com rumores de mudanças na liderança do país. A Assembleia Constituinte, que deve ser eleita em 2024, pode reforçar o poder das facções mais conservadoras, o que pode levar a políticas mais isolacionistas. Por outro lado, pressões internas por reformas econômicas podem forçar o governo a buscar acordos com o exterior, mesmo que isso envolva concessões.

Para os investidores, o consenso é de cautela. "O Irã continua sendo um mercado de alto risco, mas com potencial para recompensas significativas se a estabilidade for alcançada", diz o gestor de fundos da BlackRock, Carlos Silva. A longo prazo, a capacidade do governo de gerenciar a crise política e econômica será determinante para a recuperação do país. Enquanto isso, os mercados e as empresas seguem sob vigilância constante, com atenção redobrada aos próximos movimentos da liderança iraniana.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.