Mercado de Gases e Equipamentos Médicos em Portugal: Uma Análise da Estrutura da Cadeia da Indústria entre 2020 e 2024

Desde o início da década de 2020, o setor de gases e equipamentos médicos em Portugal tem vindo a experimentar uma transformação significativa, impulsionada por fatores como o aumento da procura por dispositivos médicos, a crescente necessidade de gases medicinais durante a pandemia de COVID-19, e a inovação tecnológica na produção e distribuição. Entre 2020 e 2024, compreender a dinâmica desta cadeia de valor revela-se vital para os operadores do mercado, reguladores e investidores interessados na sustentabilidade e no crescimento desta indústria estratégica para o sistema de saúde português. Este artigo realiza uma análise detalhada da estrutura da cadeia da indústria de gases e equipamentos médicos, com base em dados de mercado, tendências de consumo, inovação tecnológica, e desafios regulatórios, procurando oferecer uma visão completa do setor neste período de rápida evolução.

Estrutura da Cadeia de Valor no Setor de Gases e Equipamentos Médicos

A cadeia de valor do setor de gases e equipamentos médicos em Portugal é composta por várias etapas interligadas, desde a produção até à distribuição e utilização final. A sua estrutura pode ser dividida em três segmentos principais: produção, logística e distribuição, e utilização final (instituições de saúde e clientes industriais).

  • Produção de Gases Médicos: Inclui a fabricação de gases como oxigénio, azoto, dióxido de carbono, argônio e outros utilizados na terapêutica, anestesia e laboratórios. A produção ocorre predominantemente em unidades industriais específicas, muitas das quais foram ampliadas ou modernizadas durante o período 2020-2024 para responder ao aumento da procura.
  • Logística e Distribuição: Envolve o transporte especializado de gases em cilindros, cilindros de alta pressão, e sistemas de armazenamento em hospitais e clínicas. Este segmento utiliza uma rede de distribuidores autorizados, que garantem a entrega eficiente e segura dos gases.
  • Utilização Final: Destina-se às instituições de saúde, clínicas, laboratórios e também a clientes industriais, como empresas de manufatura e processamento de alimentos. Este segmento é altamente regulamentado, exigindo conformidade com normas de segurança e qualidade.

Entender esta cadeia permite identificar pontos de controlo, oportunidades de inovação e áreas críticas de intervenção para melhorar a eficiência e a sustentabilidade do setor.

Dinâmicas de Mercado e Crescimento de 2020 a 2024

O período de 2020 a 2024 foi marcado por uma expansão significativa na procura por gases e equipamentos médicos em Portugal, impulsionada sobretudo pela pandemia de COVID-19. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e associações do setor, o mercado registou uma taxa de crescimento média anual de cerca de 8%, refletindo o aumento da necessidade de oxigénio médico, equipamentos de suporte respiratório e outros dispositivos essenciais.

Entre os principais fatores que influenciaram este crescimento destacam-se:

  • Aumento da procura por gases medicinais: A pandemia levou a uma necessidade urgente de oxigénio, com hospitais a recorrerem a reservas e a novos fornecedores.
  • Inovação tecnológica: A introdução de sistemas de produção de gases mais eficientes e de equipamentos de monitorização avançada aumentou a capacidade de resposta do setor.
  • Expansão de unidades industriais: Diversas empresas de produção de gases investiram na ampliação das suas instalações, incluindo a modernização de unidades existentes e a instalação de novas linhas de produção.
  • Regulamentação e certificação: A implementação de normas europeias e nacionais reforçou a qualidade e segurança dos produtos, fomentando a confiança dos consumidores e das instituições de saúde.

Estes fatores traduziram-se numa maior competitividade do setor, com a entrada de novos players e uma maior internacionalização das operações.

Inovação Tecnológica e Sustentabilidade na Produção

Durante o período analisado, a inovação tecnológica emergiu como um elemento central na evolução do setor. A adoção de processos de produção mais sustentáveis e eficientes permitiu reduzir o impacto ambiental, ao mesmo tempo que aumentou a qualidade dos gases produzidos.

Algumas das principais inovações incluem:

  1. Produção de gases com menor impacto ambiental: A utilização de fontes de energia renovável e a implementação de processos de captura de carbono contribuíram para a redução da pegada ecológica.
  2. Sistemas de armazenamento inteligentes: O desenvolvimento de sistemas de armazenamento de gases mais seguros e eficientes, com monitorização em tempo real, facilitou a gestão de stocks e reduziu perdas.
  3. Equipamentos de dosagem e distribuição automatizada: A automação na entrega de gases permitiu uma maior precisão e segurança, essenciais em ambientes hospitalares.
  4. Investimentos em investigação e desenvolvimento: Empresas do setor colaboraram com instituições académicas para desenvolver novos dispositivos médicos, como ventiladores portáteis e sistemas de monitorização remota.

Estas inovações refletem uma crescente preocupação com a sustentabilidade, aliada a uma procura por soluções mais eficientes e seguras, essenciais num mercado cada vez mais exigente.

Desafios Regulatórios e Conformidade no Mercado Português

O setor de gases e equipamentos médicos enfrenta um quadro regulatório complexo, que exige uma constante adaptação às normas europeias e nacionais. Entre 2020 e 2024, destacam-se alguns desafios principais:

  • Normas de segurança e qualidade: A conformidade com o Regulamento (UE) 2017/745 sobre dispositivos médicos e o Regulamento (UE) 2019/1020 sobre produtos de consumo impôs requisitos rigorosos de avaliação de conformidade.
  • Regulamentação ambiental: Leis relacionadas com a emissão de gases de efeito estufa e gestão de resíduos de gases industriais obrigaram a uma revisão das práticas de produção e logística.
  • Risco de dependência de fornecedores externos: A globalização e as cadeias de abastecimento complexas criaram vulnerabilidades, especialmente no contexto de crises globais, como a pandemia.
  • Necessidade de certificação e auditorias contínuas: Manter a certificação de qualidade e conformidade exige recursos e atualização constante das operações.

Para superar estes desafios, as empresas do setor têm realizado investimentos em sistemas de gestão de qualidade, formação de pessoal, e em processos de certificação, procurando garantir a continuidade operacional e a confiança dos stakeholders.

Perspetivas de Futuro e Tendências para 2024 e Além

Com base na análise do período 2020-2024, é possível identificar várias tendências que moldarão o futuro do mercado de gases e equipamentos médicos em Portugal:

  • Digitalização e automação: A adoção de tecnologias digitais, como IoT e análise de dados, facilitará operações mais inteligentes e uma gestão de stocks mais eficiente.
  • Crescimento da procura por dispositivos portáteis e de suporte remoto: A inovação em equipamentos de monitorização e suporte respiratório portátil irá responder à crescente necessidade de cuidados domiciliários.
  • Foco na sustentabilidade: A pressão para reduzir a pegada ecológica levará a uma maior utilização de energias renováveis e a processos de produção mais verdes.
  • Internacionalização e parcerias estratégicas: Empresas portuguesas procurarão consolidar-se em mercados europeus e estabelecer parcerias com fornecedores internacionais para garantir a continuidade de abastecimentos.
  • Regulamentação mais rigorosa: Espera-se uma maior harmonização de normas europeias, que exigirão maior investimento em conformidade por parte das empresas.

Estas tendências indicam um setor cada vez mais orientado para a inovação, sustentabilidade e eficiência, essenciais para responder às crescentes exigências do sistema de saúde e da sociedade.

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Author
Mariana Costa
Especialista em mercados de capitais e investimento. Licenciada em Finanças pela Católica Lisbon School of Business and Economics, com CFA (Chartered Financial Analyst) e experiência em gestão de ativos. Mariana analisa o PSI-20, obrigações do Tesouro, fundos de investimento e a evolução da Euronext Lisbon. Contribui regularmente para publicações da área financeira e é comentadora de economia nos principais órgãos de comunicação social.